Durante anos, a cultura do ciclismo transformou watts em sinônimo de desempenho.
Números altos no medidor de potência se tornaram um troféu simbólico — um marcador de força, evolução e status técnico.
Mas existe um problema: essa leitura simplifica demais a mecânica real da velocidade.
Ciclistas comemoram novos recordes de potência enquanto ignoram o fator que mais determina o quão rápido alguém se move: o arrasto aerodinâmico (CdA). A diferença entre empurrar mais forte e andar mais rápido é muito maior do que a cultura do esporte costuma admitir.
CdA significa coeficiente de arrasto aerodinâmico. Ou seja, a área que é apresentada ao fluxo de ar. O componente do coeficiente de arrasto está relacionado às forças de atrito à medida que o ar passa pelo seu corpo, bem como à turbulência que se forma quando o ar se desprende do corpo.
O seu CdA varia conforme a direção de onde o fluxo de ar vem. Se houver vento lateral, forma-se um ângulo de guinada (yaw angle) desse fluxo de ar à medida que ele passa pelo seu corpo.
Em termos simples, é uma forma de quantificar quanta resistência o vento cria contra você e a sua bicicleta. Em outras palavras, quanto arrasto você gera enquanto pedala. Quanto menor a resistência do ar que você precisa vencer, mais rápido você vai pedalar.
1. O mito dos watts: a métrica mais celebrada não é a mais determinante
Watts medem produção de energia — não eficiência.
Eles mostram o quanto você empurra a bike, mas não mostram quanto dessa energia realmente vira velocidade.
Do ponto de vista físico, a maior parte da resistência que um ciclista enfrenta não é mecânica — é o vento.
A literatura da AeroCoach, especialmente no Fast Cookbook, reforça um dado incontornável:
Em torno de 70% a 80% da resistência total vem do ciclista, não da bicicleta.
Isso significa que, mesmo com watts elevados, um atleta com aerodinâmica ruim continua lento.
E que alguém produzindo menos potência, mas com um CdA eficiente, pode ser muito mais rápido.
A equação é simples:
➡️ Velocidade = Força / Resistência ao vento
Se você só aumenta a força, mas ignora a resistência, você está pedalando contra a física.
2. O fenômeno cultural: a corrida pelos números “bonitos”
O culto aos watts não surgiu do nada.
Ele cresceu junto com:
-
a popularização dos medidores de potência,
-
plataformas de treino gamificadas,
-
dashboards que transformam cada pedal em uma competição silenciosa,
-
a validação social em grupos e aplicativos.
Esse ambiente cria uma cultura de autoafirmação numérica:
– O atleta publica watts médios.
– O grupo responde.
– O ego sorri.
Enquanto isso, a variável que importa para quem quer ir mais rápido — CdA — permanece invisível.
O mundo profissional já entendeu há décadas que aerodinâmica decide resultados.
Amadores, porém, continuam a buscar progresso na métrica mais fácil de exibir, não na mais eficiente para vencer o vento.
O resultado?
Uma comunidade inteira reforçando a ilusão de que produzir mais watts é, automaticamente, ser mais rápido.
3. O momento da ruptura: quando a prática desmente a teoria emocional
Quase todo ciclista já viveu essa cena:
Você está no limite, empurrando números que nunca viu antes…
e alguém passa por você com menos watts — mas indo mais rápido.
É um choque.
Não apenas técnico, mas emocional.
Esse momento descortina a verdade desconfortável:
você não estava otimizando velocidade. Estava otimizando vaidade.
E conforme mais pessoas monitoram dados, mais isso aparece.
O ciclista percebe que passou meses treinando para melhorar potência, enquanto perdia minutos inteiros por escolhas aerodinâmicas ruins:
-
roupas largas,
-
posição alta,
-
capacete inadequado,
-
postura instável,
-
equipamentos mal ajustados.
A frustração cresce porque o atleta fez “tudo certo” — pelo menos dentro da cultura do watts.
Mas estava medindo o símbolo errado.
4. O argumento central: força é o que você produz; eficiência é o que te faz chegar primeiro
O que realmente determina velocidade não é o quanto você empurra — é quanto desse empurrar vira deslocamento.
-
Watts = Produção.
-
CdA = Aproveitamento.
A combinação dos dois é o que define velocidade real.
Esse é o ponto que a ciência do ciclismo moderno deixa claro:
aerodinâmica é o maior multiplicador de performance disponível.
O próprio AeroCoach Fast Cookbook coloca isso de forma objetiva:
“Os ganhos mais baratos e mais rápidos estão na otimização da posição do atleta e do fluxo de ar ao redor do corpo.”
Ou seja: não é sobre ter mais potência, e sim sobre desperdiçar menos dela.
5. A pergunta inevitável (e desconfortável)
Depois de tudo isso, chega a hora de encarar o espelho:
Você quer ter um número para mostrar… ou quer ser mais rápido?
A maior evolução do ciclista moderno acontece quando ele troca a busca por validação pela busca por eficiência.
Quando entende que velocidade é uma conversa com o vento, não com o medidor de potência.
E que aerodinâmica não é um detalhe: é a diferença entre sofrer mais e sair na frente.
Aero Shop: performance é ciência aplicada
Na Aero Shop, acreditamos que cada detalhe precisa justificar sua existência.
Por isso desenvolvemos roupas e equipamentos com foco em:
-
redução real de arrasto,
-
otimização do fluxo de ar,
-
ajuste anatômico técnico,
-
testes com sensor aerodinâmico,
-
eficiência mensurável — não simbólica.
Porque no ciclismo moderno, não vence quem produz mais watts.
Vence quem usa melhor cada watt.
Referência técnica
Texto inspirado e complementado pelo conteúdo científico da AeroCoach:
https://aero-coach.com/en/2018/04/faq-fast-cookbook/
